Autor: Texto extraído do site do Instituto Milton Erickson
Milton H. Erickson descreveu o transe
hipnótico como um estado de sugestibilidade intensificado
artificialmente e semelhante ao sono, no qual parece
haver uma dissociação normal dos elementos
conscientes e inconscientes da psique.
Lembrando a relação entre a hipnose com
a psicoterapia, Erickson afirmou que “o transe
é um período durante o qual as limitações
que uma pessoa tem, no que diz respeito à sua
estrutura comum de referência e crenças,
ficam, temporariamente, alteradas, de modo que o paciente
se torna receptivo aos padrões, às associações
e aos moldes de funcionamento que conduzem à
solução de problemas”.
Para a maioria dos membros do Instituto Milton Erickson
do E.S. o transe hipnótico é um estado
emocional especial no qual a pessoa fica mais receptiva
aos estímulos que desencadeiam processos saudáveis
de mudança.
Fenômenos hipnóticos do dia a dia
Um grande argumento da idéia do transe hipnótico
como experiência naturalística e comum
a todas as pessoas é a ocorrência dos chamados
fenômenos hipnóticos do dia a dia. São
fatos e circunstâncias que acontecem à
parte da situação específica de
indução hipnótica, mas que em nada
se diferenciam da experiência vivenciada a partir
do trabalho técnico de um hipnólogo.
Nota-se, por exemplo, o fenômeno hipnótico
da regressão de idade (sentimento de reviver
por sentimentos, imagens, etc.) em pessoas que experimentam
situações como ser criticadas, participando
de uma diversão engraçada e infantil,
estar junto aos pais ou examinar álbuns de fotografia.
A progressão de idade, outro fenômeno hipnótico,
pode ser vivenciada no planejamento das férias,
numa visita a berçários ou em aniversários.
A amnésia ocorre comumente: quando esquecemos
algo e dizemos que está “na ponta da língua”,
na inabilidade de se encontrar objetos pessoais, nas
apresentações sociais (esquece-se nomes),
quando se procura algo e de repente se esquece o que,
etc.
O contrário, a hipermnésia, também
é comum no dia a dia: pode-se recordar de repente
a sensação vívida de se estar apaixonado,
ou a lembrança em detalhes, tipo câmera
lenta, de um acidente ou episódio.
Também são comuns as “fugas”
da atenção consciente, quando se assiste
televisão ou cinema, ou mesmo durante o ato de
dirigir e até mesmo durante um caminhar.
Os Mitos e As Dúvidas
A expressão de poderosos recursos normalmente
inconscientes possibilitada pela indução
hipnótica, juntamente com sua exploração
durante muitas décadas (e de certa forma ainda
hoje) como técnica de exibição
pública, criou no imaginário popular idéias
desprovidas de rigor.
Conceitos equivocados, crenças desvirtuadas e
vinculações mal engendradas da hipnose
com práticas de fundamentos diversos, ainda permanecem
em destaque. Listamos abaixo alguns dos mitos e das
dúvidas mais comuns:
1. O poder especial do hipnotizador
Idéia provavelmente oriunda dos tempos em que
Mesmer vinculou o transe hipnótico àquilo
que chamou de magnetismo animal. Por muito tempo (e
de certa forma ainda hoje) a prática da chamada
“hipnose de palco” buscou vincular a indução
com o poder pessoal especial dos demonstradores. Sendo
a hipnose um fenômeno natural, está ligada
àquilo que acontece com o hipnotizado, e não
com um suposto poder do hipnotizador.
2. Quem pode ser hipnotizado
Como fenômeno cotidiano e natural, o transe acontece
em todas as pessoas. O transe induzido, no entanto,
encontra resistência em uma parcela das pessoas.
De acordo com os critérios que se adotam para
avaliar um estado hipnótico, este percentual
estaria situado entre 50% e 99% da população.
De toda forma, é consenso que algumas pessoas
são refratárias (aparentemente não-hipnotizáveis)
a alguns hipnotizadores ou a alguns métodos de
indução.
3. O sono e a hipnose
O transe da hipnose não é um estado de
sono, apesar da aparência sob o ponto de vista
físico. Mentalmente a pessoa está, de
forma especial, alerta e concentrada.
4. Hipnose e relaxamento
As técnicas de indução mais praticadas
se baseiam no relaxamento corporal, mas o transe pode
ser conseguido através de outras formas, principalmente
com métodos ericksonianos indiretos.
5. Hipnose e terapia
Hipnose não é terapia, mas apenas um instrumento
para se atingir estado emocional de disponibilidade
adequada para a reflexão terapêutica. Mesmo
assim, há autores que defendam a idéia
de que o estado de relaxamento e até mesmo a
auto-hipnose são benéficos terapeuticamente
por si mesmos.
6. Perigos da hipnose
Por se utilizar de técnicas que expõem
recursos inconscientes poderosos, a hipnose exige formação,
preparo e habilitação reconhecidos por
instituições formais legitimadas que cuidam
da pesquisa e da difusão desta matéria,
como por demais assim o exigem outros campos das ciências
humanas.
7. Comando do hipnotizador sobre o hipnotizado
Tema polêmico, que tem defesas para pontos contraditórios.
Há pesquisadores que alegam terem comprovado
que através de sugestões pós-hipnóticas
pode-se induzir atos que uma pessoa, a partir de seus
hábitos e valores naturais, não cometeria.
Outros defendem o absolutismo de uma intenção
positiva do inconsciente que invalidaria sugestões
que trazem embutidos riscos ao próprio hipnotizado
ou a outras pessoas. A instância mais profunda
da mente, no contexto ericksoniano chamada também
de mente inconsciente, protege a pessoa de tudo aquilo
que ele não deseja fazer. O sujeito hipnótico
pode ou não acatar aquilo que está ouvindo
durante um transe.
8. Não “retornar” de um
transe
É comum algumas pessoas não retornarem
imediatamente ao estado natural de vigília no
final de um transe, quando assim são solicitadas.
Podem demorar algum tempo e, em alguns casos, é
necessária uma sugestão para que transformem
o transe em sono fisiológico, depois do qual
acordam naturalmente.
9. A regressão de idade existe?
A transposição dos limites do tempo e
do espaço é uma das muitas características
fenomenológicas do transe hipnótico. Isto
permite, quando se leva também em conta a hipermnésia,
que se revivifique de maneira intensa fatos já
ocorridos e que normalmente não seriam lembrados.
No entanto, torna-se importante destacar a pesquisa
transderivacional como um dos pilares da dinâmica
funcional da mente (lacunas no raciocínio lógico
ou na lembrança passada são sempre preenchidas
por conteúdos coerentes com a estrutura da personalidade
do indivíduo). Assim sendo, abre-se a possibilidade
de interpretar-se descrições de períodos
anteriores da vida como “invenções”
(sem o conteúdo de má fé) da pessoa
hipnotizada. Assim também se explicariam as chamadas
“regressões a vidas passadas”. As
sensações desconfortáveis das estruturações
individuais neuróticas, sem uma explicação
racional para seus portadores, levam à busca
de “explicações” em períodos
anteriores da existência e em outras existências.
Acrescenta-se aqui uma forte influência da crença
religiosa-espiritual de reencarnação.
Também destaca-se a redução do
senso crítico lógico e a tendência
à dramatização da pessoa em transe,
que faz com ela aceite mais facilmente uma sugestão
de buscar respostas em períodos passados. Pesquisas
que buscavam rigor na comprovação da “regressão
a vidas passadas” mostraram que, com o mesmo grau
de dificuldade, consegue-se induzir uma “progressão
a vidas futuras”, com descrições
detalhadas de períodos de tempo muito além
do nosso. Conclui-se, a partir disto, que as informações
fornecidas durante um transe hipnótico devem
conter um peso apenas parcial em sua correlação
com os fatos verdadeiros.
Aplicações da Hipnose
A crescente aplicação clínica da
hipnose tornou comum a confusão entre esta técnica
e a psicoterapia. Na realidade, o transe induzido tem
sido cada vez mais utilizado dentro de processos terapêuticos,
não só no campo dos tratamentos psicológicos
propriamente ditos, mas também em outras áreas
da medicina, da educação, da odontologia,
das artes, dos esportes, etc.
Podemos citar o uso da hipnose em cardiologia, para
aliviar taquicardias sinusais em pessoas nervosas, na
dor pós-infarto e na reabilitação
pós-infarto, assim como em diversos tipos de
dores precordiais e também na hipertensão
essencial.
Na neurologia e na ortopedia utiliza-se a hipnose nos
torcicolos, nas dores lombares, em outras dores tensionais
da coluna, na dor dos membros-fantasmas após
amputação, em certas parestesias, nas
cefaléias e nas insônias.
No campo da gastroenterologia haveria indicação
para tratamento das náuseas e vômitos,
nas gastrites e úlceras gastroduodenais, em algumas
hemorragias digestivas, na colite ulcerativa, na inapetência,
em dores abdominais de origem psicossomática,
em casos de anorexia e perversões do apetite
e nas aerofagias.
Cita-se também em urologia, ginecologia e obstetrícia,
o uso da hipnose em alguns casos de disúria,
na polaciúria, na enurese noturna, na impotência,
na ejaculação precoce, na anorgasmia,
na dispareunia, na não aceitação
da gravidez, na hiperemese gravídica, na redução
da dor do parto, nas dismenorréias e até
na facilitação do exame ginecológico
comum.
Outro campo médico que pode aplicar a hipnose
é a otorrinolaringologia, para examinar o cavum
em pessoas mais tensas ou hipersensíveis, em
certas hipoacusias e disfonias, e na gagueira.
Na dermatologia a utilidade poderia ser no tratamento
dos eczemas e pruridos em geral, na psoríase,
nas verrugas juvenis, na ictiose, nas peladas e na hiperidrose.
No campo da alergia, destaca-se a contribuição
da hipnose no tratamento da asma e da bronquite crônica,
na urticária e nos eczemas alérgicos.
Em cirurgia geral para a redução do medo
pré-operatório, para diminuir certas complicações
pós-operatórias e como método anestésico
de urgência.
Pode-se também citar o uso em casos de queimaduras,
para facilitar os curativos e para melhorar o prognóstico,
além de reduzir a dor.
Na odontologia para o preparo do paciente com medo,
na hiper-sialorréia, nas náuseas excessivas,
para diminuição das hemorragias, para
que o paciente mantenha a boca bem aberta, para melhor
aceitação de prótese e no bruxismo.
Na área educacional, existem estudos que mostram
a utilização da hipnose para a melhora
do aprendizado e da memorização. No campo
dos esportes para eliminar tensões e angústias,
aumentando o rendimento. Até mesmo no campo jurídico,
com um aumento da memória das testemunhas e dos
acusados com relação a fatos delituosos.
Obviamente, qualquer indicação para uso
da hipnose deve ser sempre considerada como relativa,
já que esta técnica não se coloca
como panacéia para efetivação de
milagres.
Fonte: Instituto Milton Erickson
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