:: DISCUTINDO O CONCEITO DE ORGANIZAÇÃO E ADMINISTRAÇÃO DO TRABALHO


Autores: Eduardo Abad e Mônica Guimarães



A análise de qualquer conceito, quer seja a respeito da formulação de propostas de administração ou da relação existente entre tais processos administrativos e a sociedade, deve, antes de mais nada, nascer da constatação ou de uma análise isenta dos fatos preponderantes nos processos que regem a sociedade como um todo.

No ponto que estamos de desenvolvimento tecnológico e cultural, seria um retrocesso imenso simplesmente ignorar ou desconhecer que as relações existentes entre patrões e empregados, entre empresas e outras empresas ou em mais amplo escopo entre empresas e órgãos oficiais do governo, são, nada mais do que reflexo da sociedade que agrupa todas as células unitárias enumeradas acima.

Tal constatação, não é o bastante para iniciar uma discussão a cerca dos conceitos propostos previamente. Na verdade, o que ocorre no universo interior das empresas modernas, nada mais é do que um reflexo das relações inter-humanas que vêm se desenvolvendo desde o nascimento das sociedades.

A partir do singelo momento que o homem se deu conta que o seu trabalho poderia, de forma significativa ser melhorado se o mesmo passasse a dividir as tarefas de acordo com até então habilidades individuais, podemos constatar o nascimento tanto do processo administrativo, quanto dos processos de dominação e divisão em classes, que tem sido a tônica em toda a história da humanidade, notadamente nos tempos modernos, período este que caracterizaremos como sendo iniciado com a revolução industrial. Um retrato bastante fiel desta época embora retrate basicamente o período da segunda etapa da revolução industrial, que é o correspondente à expansão do processo de desenvolvimento, é o desenvolvido por Charles Chaplin, em seu filme Tempos Modernos. Embora este filme apresente uma visão considerada de "esquerda", retrata fielmente as relações entre empregados e empregadores, que até hoje persistem.

É importante levantar, que não existe tal história de "capitalista bonzinho", para se realizar lucro na sociedade que vivemos é necessário que haja um certo nível de exploração do empregado, e isso não pode sair de foco em momento algum, sob pena de se sucumbir em boas intenções como se têm exemplos fartos a escolher. A realidade do modo de produção capitalista, com todas as suas decorrências tais como a linha de produção, a especialização e fragmentação do trabalho induz a um modo totalmente típico de exploração do trabalho, e certamente este foi o grande dilema enfrentado pelos países que tentaram adotar o modo de produção Socialista: Como explorar a força de trabalho do homem em uma sociedade, que se fundamentava na não exploração do mesmo?

Hoje sabemos que o grande feito, e a grande alavanca que move o mundo capitalista podem ser sintetizados em um conceito simples: a esteira de produção. Só a partir da implantação de tal artefato de simples conceituação é que realmente pode-se dizer que começaram a surgir no mundo os conceitos de produtividade, assim como conhecemos na atualidade. Mas qual foi a mola propulsora que induziu homens a pensarem em tal solução? Certamente a mesma que move o aprimoramento dos processos administrativos como um todo: a necessidade de se produzir cada dia mais, a um preço cada vez menor para poder superar uma concorrência que com certeza está adotando as mesmas táticas. Assim compreendemos o que levou Taylor, com seus estudos de tempos e movimentos a propor os conceitos e fundamentos que nos remetem ao estabelecimento da esteira de produção.

Seguramente, não foi o simples fato de se organizar a produção assim como descrito nos livros básicos de Teoria Geral da Administração. O real interesse é sem sombra de dúvida a dominação da força de trabalho através da fragmentação do mesmo.

Fragmentando-se o trabalho, consegue-se simultaneamente uma maior produtividade, visto que o operário está preocupado apenas com um escopo cada dia menor de tarefas progressivamente mais simples, e como as tarefas são cada vez mais simplórias, a necessidade de mão-de-obra especializada diminui bruscamente. Aí, inicia-se um processo de "burrificação" do empregado, que devido ao fato de se necessitar cada dia menos de mão-de-obra especializada, deixa cada dia mais cedo as instituições de ensino para trás para ingressar no mercado de trabalho que está ávido pelo seu desempenho iletrado. A conseqüência mais imediata da falta de especialização é o salário, que a partir de então pode ser diminuído até os patamares correspondentes à sua atual situação.

Este cenário, que procuramos inicialmente dissecar, retrata o nascimento das principais relações interpessoais que regem o processos administrativos como um todo, porém um novo questionamento surge em momento oportuno:

Atualmente, mudaram as relações? Com o progresso científico e os avanços sociais a situação modificou-se de forma substancial ou são exatamente os mesmos problemas mascarados ou com uma roupagem contemporânea?

Fundamentalmente os problemas são os mesmos, porém é inegável que alguns avanços foram alcançados com o decorrer dos anos. Hoje sabemos que o homem necessita de outros fatores, que não só o financeiro, para se sentir motivado, e como uma conseqüência imediata, produzir mais e assim aumentar a produtividade da empresa para qual o mesmo trabalha. Através de estudos do comportamento humano, e aí inclusos tanto os fatores psicológicos quanto físicos, chegou-se a conclusão que a exploração simples e desenfreada do homem, como se o mesmo fosse nada além de uma máquina, não conduz a resultados tão eficientes quanto à aqueles alcançados quando um mínimo de conforto fornecido pelo empregador, sendo este, "vendido" ao empregado como sendo o máximo em direitos adquiridos através dos tempos. Essa não é uma forma cruel de se pensar o processo administrativo, mas sim a forma de sobrevivência segundo às atuais conjunturas. Cada dia mais, o processo de dominação é ampliado, porém é necessário que o mesmo seja "mascarado" para ter algum sucesso, afinal não podemos negar os avanços sociais alcançados com o decorrer dos anos.

A administração, pode ser considerada como o ato de gerir os recursos de uma organização. É, além da ciência de saber alocar os recursos desta de forma a otimizar o seu desempenho, a arte de gerenciar os interesses conflitantes que naturalmente coexistem dentro de uma mesma organização. Por sua vez, a organização pode ser entendida como o conjunto de recursos físicos e humanos, que embora apresentarem interesses conflitantes trabalham em conjunto, ou pelo menos tentam, com a finalidade de alcançar os seus objetivos, desde que estes também sejam os interesses da organização, caso contrário sempre prevalece o interesse organizacional em detrimento dos interesses individuais ou até mesmo de alguma coletividade interna ao empreendimento.

Então, através de uma análise de levantamentos previamente realizados, podemos chegar à conclusão que já era prevista quando iniciamos a análise dos fatores individuais. A empresa moderna, cuja administração queremos dissecar para melhor compreendê-la, é nada mais, e nunca poderia deixar de ser, do que um reflexo, sem distorções, das relações existentes na sociedade como um todo. É muito importante que se tenha isto sempre em mente.

Embora não se concorde com o modo através do qual os fatos são encaminhados, é preciso sempre ter em mente o motivo que levou a tal desenvolvimento, até para que se possa pensar em alguma forma de melhoramento das relações entre patrões e empregados, que é o eterno e ininterrupto conflito existente nas empresas de qualquer época até o presente momento e que pode ser projetado para um futuro não muito breve onde haverá um maior número de informações e o acesso a elas será mais rápido e fácil. Assim, o grande desafio será perceber oportunidades nelas embutidas e, então, lançar-se à frente dos concorrentes, inovando e evoluindo assim como já se evidencia no presente momento.

Novas tecnologias surgem a cada instante, tornando a vida mais simples e agilizando um enorme número de processos. Futuramente, assim como já vem acontecendo hoje, o acesso a tais inovações será mais facilitado e barato. Com a ajuda de tais modificações surgirão empresas virtuais, reduzindo o espaço físico ontem necessário a sua atuação, facilitando suas operações e a vida de seus clientes. Inovações ajudarão no controle de tarefas, no seu planejamento e execução, e também proporcionarão cada vez mais, uma grande economia de tempo.

Os desafios serão a cada dia maiores, tendo em vista o fácil acesso de todos a um grande número de informações e tecnologias, devido a globalização do mundo. Dirigentes deverão apurar suas visões, tornando-se capazes de captar novas oportunidades.

A administração de hoje parte do pressuposto que as comunicações devem ser livres não importando os níveis hierárquicos em que os funcionários se inserem : a palavra de ordem é participação. Todos devem estar conscientizados que fazem parte de um todo cuja característica primordial deve ser a unidade para alcançar os objetivos pré estabelecidos. A individualidade, o espírito que havia de um homem liderar sozinho uma organização (o chamado "self made man") muito valorizado na década passada, perde seu lugar para o líder interligado com aqueles que supervisiona e para o novo lema "somos uma equipe" ( ou no melhor estilo mosqueteiro "um por todos e todos por um", onde esse um representa o objetivo a ser alcançado ou até mesmo a organização ). O egocentrismo, a filosofia empresarial que privilegiava os "show- man" agora foi substituída pelo senso de que a coletividade faz a diferença. Saber o quê realmente motiva seus subordinados se tornou prática de sobrevivência e evolução de uma empresa, não mais teoria relegada a segundo plano, por dar ênfase às pessoas além dos produto. A organização passou a ter uma estrutura cuja flexibilidade proporciona a manutenção do lugar no mercado e a procura de novos nichos mercadológicos. Nesse novo tempo, o mercado e os consumidores não mais se ajustam à o quê as organizações impõem como serviço e produto, mas estas estão à procura de satisfazê-los em suas necessidades.

Então, após passarmos por todos os fatores descritos, cabe um novo e longo questionamento acerca do problema ético. Uma vez que se estuda o assunto, o problema ético surge de forma avassaladora. Como conseguir os melhores desempenhos dos operários sem que haja uma exploração abusiva da força de trabalho, ou das novas condições impostas por um mercado que a cada dia dispensa mais e mais pessoas? Hoje, parece que infelizmente não temos a resposta para tal questionamento, mas cabe uma reflexão fundamentada no filme "Brazil, the Movie". Tal trabalho se propõe a uma análise extremada da situação da burocracia nacional que é internacionalmente conhecida, porém ao concluir o tema, o autor nos deixa um questionamento sobre a questão ética do trabalho individual. Apesar de dominar os fatores que levam ao stress e à fadiga do empregado, nada é feito com a finalidade de se fazer prosperar a situação do homem em detrimento de uma exploração dia-a-dia crescente da força de trabalho.

Ainda relativo ao filme, a questão burocrática é abordada, porém de forma não visionária. O autor vislumbra um futuro onde o homem será dominado por papéis, vivendo com a única exclusiva função de preencher formulários em incontáveis vias para em seguida arquivá-los, e dar início novamente ao processo. Porém, o fator tecnológico embute no sistema uma variável ainda mais perversa. Agora o homem pode deixar de ser "escravo" de outro homem e passar a ser escravo de máquinas que o tratam agora como um número, com a relativa frieza que é dispensada aos seus semelhantes; contas bancárias, placas de veículos, etc.. Então, como fica a questão ética agora? há como "ensinar" fatores éticos a máquinas para fazer com que as mesmas reflitam? Podem as máquinas por si só tomarem qualquer tipo de decisão que envolva o fator humano? Este tipo de questionamento já tinha sido levantado no filme "Tempos Modernos", quando se tenta vetar ao operário inclusive o seu direito de escolha do seu tempo de alimentação. Chaplin tentou neste ponto prever os efeitos iniciais de uma crescente robotização da indústria, porém é razoável acreditar que é muito mais do que isso. Esta foi uma visão premonitória porém extremada dos métodos e formas de se dominar o homem, tirando-lhe o máximo de livre arbítrio possível para poder dominá-lo de forma mais eficiente. E o estado, onde fica no meio de tudo isso? Visto que assim como levantamos, a empresa é o reflexo do estado, é de se esperar que as mesmas situações sejam encontradas não só no aparelho de governo mas na sociedade como um todo. Pensar em modificar tais relações, passa então a ser uma tarefa muito mais ampla, envolvendo a mudança de alguns bem sedimentados e embasados alicerces sociais.

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